Pontos de convergência entre a dança e a música brasileiras na segunda metade do século XX

Sisudez e alegria, protesto e desbunde

A exposição Sisudez e Alegria, Protesto e Desbunde, disponível no site do CCSP, apresenta cenas da formação da dança contemporânea paulista e explora movimentos e espetáculos importantes no desenvolvimento dessa manifestação artística. Partindo dela, é possível estabelecer aproximações com a música popular produzida na mesma época, visto que ambas as linguagens integram um contexto de busca por liberdade estética, existencial, sexual e política.

Dividida em três blocos de fotografias e um de vídeos, a exposição online inclui espetáculos desde os anos 1970, como Presenças (1979) e Aquarelas do Brasil (1979), ambos dirigidos por Antônio Carlos Cardoso, até a década de 2000, como Palavra, a poética do movimento (2002), da companhia Nova Dança. As imagens pouco revelam do cenário e do contexto das peças em questão, centrando-se nas personagens e prezando pelas sensações e interações entre os atores durante os espetáculos.

A escassez de elementos cênicos e a inexistência de um cenário específico contribuem para o caráter experimental da dança contemporânea, que pretende se desenrolar conforme os diferentes pontos de vista do público e movimentos por vezes improvisados. Outro aspecto importante é a pluralidade, que se configura nessa manifestação artística cuja busca principal é romper com as convenções prévias por meio de alterações bruscas nos níveis de movimento (alto, médio e baixo) e quebras de ritmo.

Música e dança contemporâneas no Brasil

O primeiro grande grupo de dança brasileiro foi o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, criado em 1927 – ou pelo menos o primeiro a surgir no eixo mais comercial Rio-São Paulo, já que diversos gêneros de dança sempre marcaram presença na cultura brasileira, sendo previamente identificados por pesquisadores e estudiosos, embora ainda não institucionalizados ou pouco reconhecidos.

Mais adiante, em 1968, surge o Corpo de Baile Municipal, vinculado ao Theatro Municipal de São Paulo, que, em seu início, ainda guardava diversas semelhanças com o estilo europeu de teatro, com a apresentação de grandes óperas e espetáculos de dança já consagrados. Paralelamente a isto, a música brasileira já se desenvolvia em meio ao experimentalismo e à ousadia trazidas pela Tropicália, cujo principal grupo de músicos, nascidos predominantemente no Nordeste, foi influenciado pelas vanguardas do início do século e suas reverberações nas décadas seguintes.

No início do decênio de 1980, o Corpo de Baile Municipal muda de nome para Balé da Cidade de São Paulo – inclusive, a apresentação da coreografia Bolero, em 1982, inaugura o Centro Cultural São Paulo –, aumentando também a rotatividade da direção e prezando por coreografias que rompiam com as convenções formais adotadas anteriormente e incluíam movimentos mais originais e elaborados. Técnicas corporais se unem à criação artística, constituindo pontos de convergência entre uma expressão mais natural do cotidiano e uma interpretação mais subjetiva por parte dos dançarinos.

Processos semelhantes ocorrem com a música da época, tanto no Brasil como no mundo todo. O experimentalismo presente nos movimentos mais bruscos e repentinos na dança contemporânea se reflete, por exemplo, na Tropicália e na ascensão de grupos musicais como Novos Baianos e Secos & Molhados, com apresentações ousadas, provocativas e contestadoras desde os arranjos musicais até os figurinos, passando pelas letras e melodias das canções.

A abnegação presente no estilo despojado e hippie de “Dê um Rolê”, dos Novos Baianos, a alusão ao uso de drogas ilícitas – em metáfora a um amor não correspondido – de “Família do desprezo”, de Jards Macalé, e a exaltação a elementos nacionais em “Tropicália”, de Caetano Veloso, são alguns dos exemplos que qualificam o discurso político entremeado de questões socioculturais.

O grupo belo-horizontino Corpo, criado em 1975, é outra referência importante para a dança contemporânea no Brasil. Sua trajetória inclui montagens originais acompanhadas por músicas de Ernesto Nazareth (no espetáculo Nazareth, de 1993), Caetano Veloso e José Miguel Wisnik (em Onqotô, de 2005) e Milton Nascimento (no grande sucesso Maria, Maria (1976), coreografado por Oscar Araiz e encenado em 14 países até 1981).

Contracultura brasileira

Paralelamente a isto, o uso do termo desbunde, que se nota no título da exposição online, era disseminado no país, sugerindo uma desconversa, um recuo, uma saída discreta de determinada situação – neste caso, de forma mais evidente, o abandono à luta armada. O emprego dessa palavra (gíria nacional muito usada nos anos 60, mas originalmente empregada no universo do candomblé), hoje naturalizada no português brasileiro, tinha um sentido acusatório e ultrapejorativo que deslegitimava as atitudes dos artistas e tratava como “loucos” todos aqueles contrários ao regime ditatorial no Brasil – e em vários países da América Latina – na segunda metade do século XX.

Alguns dos recursos contraculturais envolviam a efemeridade e a contingência, sugerindo uma mudança de paradigma por meio da fusão e difusão de informações. Quanto mais pessoas conscientes acerca das correntes de resistência contra a Guerra do Vietnã, e a favor das propostas com relação às reivindicações por direitos civis para mulheres, homossexuais, negros e outros grupos tidos como minorias na sociedade, maiores o movimento e a capacidade de diálogo criada por meio dele.

A linguagem direta, censurada pela ditadura, impedia uma verbalização mais agressiva daquilo que realmente se passava, levando os artistas da época ao uso de inúmeros recursos e figuras de linguagem para falar da repressão, da tortura e da violência de forma mais indireta, embora incisiva e assertiva na maior parte das vezes. Através da arte, a explicitação dos problemas ganha contornos mais sugestivos, apontando uma incompletude da realidade e conduzindo o público, assim, para uma tomada de consciência ética e política.

Grandes nomes da dança brasileira como Reneé Gumiel (1913-2006), Klauss Vianna (1928-1992), Angel Vianna (1928-) e Iracity Cardoso (1945-) desenvolveram métodos próprios de expressão corporal e priorizaram a transmissão de sentimentos e emoções em suas coreografias, chegando, inclusive, em alguns momentos, a abrir mão de aspectos estéticos mais valorizados no balé clássico e nas formas mais convencionais de dança.

A intenção de romper com convenções previamente estabelecidas e ao mesmo tempo elucidar os cidadãos quanto ao contexto autoritário e repressor da época foi um fio condutor da arte brasileira no contexto da ditadura civil-militar (1964-1985), tanto na música e na dança abordadas aqui quanto em outras linguagens como o teatro, a pintura e a literatura. Entre a elucidação e o choque na relação artista-público, as artes procuravam delinear um caráter nacional-popular e estabelecer diálogos com elementos antropofágicos, contraculturais e alternativos, retomando ideias modernistas e alterando paradigmas estéticos e ideológicos de uma geração inteira.

+Para saber mais:
BOGÉA, Inês (organização e apresentação). Oito ou Nove Ensaios sobre o grupo Corpo. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

Texto: João Vitor Guimarães e Vinícius Máximo
Ilustração: Beatriz Vecchia

*Publicado em 27 de novembro de 2018

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