Pequeno elogio às origens do cinema

Para pensar a história atual, muitas vezes é preciso compreender o passado e todo o seu desenvolvimento. As coisas não brotam do impossível chão. Existe todo um processo de transformação dentro da história. Em evoluções políticas, evoluções sociais e, claro, evoluções[1] artísticas, por vezes só conseguimos olhar para o produto final, sem entender exatamente o contexto e como é que tal coisa chegou até nós.

O cinema não surgiu do dia para a noite. Existe um longo debate que nos remonta a uma possível data no ano de 1895, quando os irmãos Lumière foram responsáveis pela primeira exibição pública paga de uma série de filmes, entre eles A chegada do trem na estação (1895). As datas nos ajudam a colocar as coisas dentro de um contexto maior da história, e com isso esse filme de 50 segundos viria a contribuir com (e revolucionar) a história a partir de então.

Contudo, vale lembrar que Thomas Edison, já em 1891, exibia seus experimentos com imagens em movimentos. Não podemos ignorar o que veio antes, o que é conhecido como pré-cinema. Como alertam André Gaudreault e Tom Gunning[2] não é possível pensar a história do cinema hoje em dia da mesma maneira como se pensava em 1970. Ou seja, não podemos achar que a experiência cinematográfica tem datas concretas.

As sessões de lanterna mágica ao longo do século 19 já nos mostravam o indício do desejo pelo movimento nas imagens, mas não apenas. Outros tantos dispositivos também podem ser incluídos nessa lista, como o taumatrópio, o cinetoscópio (invenção de Edison), o zoopraxiscópio, que, em certa medida, lembram nossos gifs de hoje em dia, entre diversos outros.

A História não é simples, os movimentos ocorrem em diferentes ocasiões e locais, e não há datas específicas para afirmar que uma revolução tecno-científica se deu em um momento preciso. Podemos dizer que é um processo em diversas etapas. Por isso, o cinema é uma invenção cuja evolução se deu em diferentes períodos da história. Gaudreault e Philippe Marion[3] dizem que uma mídia nasce (ao menos) duas vezes[4]. E não seria diferente com o cinema, que, segundo os autores, teve um novo nascimento na era digital. O termo nascer, aqui, vem em contraponto com as diversas mortes anunciadas do meio: segundo os mesmos autores, o cinema “morreu” no mínimo oito vezes desde a sua invenção.

É estranho pensarmos hoje, com o excesso de imagens – sobretudo de imagens em movimento –, como seria entrar em uma sala escura, sentar-se em uma poltrona e olhar uma tela em branco, na ansiedade de não saber exatamente o que irá acontecer em seguida, deixando-se guiar pela experiência sensorial da descoberta. E aí começa o espetáculo: fotografias se sucederiam em uma tal velocidade que criariam a simples ilusão de movimento. No início, os frames por segundo (fps) variavam de 16 a 24, o que acabou se tornando um padrão. Hoje em dia, porém, é possível encontrar filmes com 70 fps, como é o caso do documentário Aquarela: força da natureza (2018, Viktor Kossakovsky).

Talvez aqui seja também importante ressaltar a difícil definição de cinema atualmente. Cinema é toda imagem em movimento? Cinema é o dispositivo? Cinema é a experiência coletiva? Para resumir a resposta: “O cinema é um fenômeno sociocultural complexo que não se resume à simples projeção de imagens fotográficas que dão a ilusão do movimento”[5], como afirmam Gaudreault e Marion. Com a era digital, o termo ganhou outros contornos. Podemos até pensar que o cinema conquistou seu espaço na sala de diversas pessoas ou até mesmo no transporte público por meio de uma pequena tela que cabe na palma da mão. Muita coisa mudou do cinematógrafo para o smartphone.

Mas vamos voltar ao início, quando o cinema era algo novo, algo encantador. Artistas como Georges Meliès enxergaram o potencial transformador dessa arte. Durante esse início, o cinema serve muito mais como experimentação. As imagens muitas vezes tinham um caráter ilusório e mágico para o público, se pensarmos, por exemplo, em O castelo assombrado (1896, G. Meliès) e Viagem à Lua (1902, G. Meliès). O que atraía público não era só o fascínio pelas imagens em movimento, mas também o potencial inovador dessa nova tecnologia.

Não precisamos ir tão longe na história para entender que o “efeito novidade”[6] da tecnologia é algo que ainda encanta o público mundo afora. É só pensarmos no sucesso de Avatar (2009, James Cameron) e sua tecnologia 3D, que demandou a reconfiguração de diversas salas de cinema. Podemos pensar também nos cinemas 4D, 5D e até mesmo 8D (!), que encontramos em shoppings e parques de atração hoje em dia, e que ainda possuem esse caráter atrativo.

É também com o tempo que realizadores começam a perceber o potencial narrativo. A narrativa começa a interessar cada vez mais público e produtores. E a partir de 1910 pode-se notar uma crescente dominação de filmes como O maravilhoso mágico de Oz (1910, Selig Poliscope Company) e Os invasores (1912, Francis Ford, Thomas H. Ince). Sem se esquecer de D.W. Griffith, responsável por dirigir mais de 500 filmes entre 1908 e 1951, entre eles o polêmico O nascimento de uma nação (1915).

Muitos diretores experimentais vão se reaproveitar de imagens criadas nesse início para dialogar com a própria criação do cinema, esse impulso inicial pela experimentação do movimento. Livres da narrativa cinematográfica dominante, filmes como Eureka (1974-1979, Ernie Gehr), A MOVIE (1958, Bruce Corner) e Oh! Uomo (2004, Angela Ricci-Lucchi, Yervant Gianikian) nos fazem retornar a um período da história do cinema em que possivelmente o público ficava muito mais aberto a uma experiência de sentidos múltiplos do que atrás de uma história lógica. E como diria o cineasta experimental Ken Jacobs: “Ver um filme em busca de um sentido é um substituto lamentável para a experiência sensorial”[7].

O cinema provavelmente continuará a morrer diversas vezes ao longo da história. Contudo, esperamos que essa morte não se deva a cortes financeiros em produções, mas que seja mais uma nova tecnologia que faz seguir adiante essa arte que nos fascina há mais de um século.

Notas

[1] Uso o termo evolução não em sentido de que uma nova realidade seria superior à anterior, mas sim no sentido próximo aos formalistas russos. Para o autor Jouri Tynianov : “Se admitirmos que a evolução é uma mudança na relação entre os termos do sistema, isto é, uma mudança de funções e de elementos formais, a evolução passa a ser uma ‘substituição’ de sistemas. Essas substituições têm um ritmo lento e irregular, e elas pressupõem não uma renovação e total substituição dos elementos formais, mas a criação de uma nova função desses elementos.” Tynianov, Jouri. 1965. “De l’évolution littéraire”, Théorie de la littérature, Paris, Seuil. Tradução minha a partir da citação em André Gaudreault e Tom Gunning em “Le Cinéma Des Premiers Temps, Un Défi à l’histoire Du Cinéma?”, 1989, https://papyrus.bib.umontreal.ca/xmlui/handle/1866/21080, p.56.

[2] Gaudreault, André, et Tom Gunning. 1989. «Le Cinéma Des Premiers Temps, Un Défi à l’histoire Du Cinéma? ».

[3] Gaudreault, André, et Philippe Marion. 2013. La Fin Du Cinéma? Un Média En Crise à l’ère Du Numérique. Collection Cinéma/Arts visuels. Paris: Armand Colin.

[4] Ibid, p. 149-177

[5] Ibid, p. 150

[6] O termo foi traduzido a partir de “l’effet novelty” empregado por André Gaudreault e Philippe Marion, ibid, p.157

[7] Traduzido de: “Reading a film for meanings is a sorry substitute for sensory experience.” Jacobs, Ken. 2000. “Beating my Tom Tom” em Exploding, Special Issue : Tom, Tom The Piper’s Son, p.5.

Texto: Caio Narezzi (doutorando em estudos cinematográficos pela Université Lumière Lyon 2 e pela Université de Montréal, colabora mensalmente com o site do Centro Cultural São Paulo)
Revisão: Paulo Vinício de Brito
Ilustração: Marina Ester

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