Palavras e suas imagens: como nos relacionamos com aquilo que lemos?

Para além do gosto pessoal, é possível pensar sobre o impacto causado por uma obra de arte no contexto que a cerca por meio da descrição de observações e comparações com outros livros e outros contextos. Entender por que alguém escreveu algo e compartilhou com o mundo vai além de perceber (ou não) que um texto é gramaticalmente correto, formalmente único e trata de temas socialmente relevantes, sendo também uma forma de entender que tipos de discursos e atitudes são defendidos e vividos por diversos povos em diferentes tempos. A obra de arte, além de nos representar, permite enxergarmos outros pontos de vista sabendo que, embora se trate de algo irreal, é verossímil e, portanto, diz respeito a todos nós.

Um livro de ficção, que necessariamente manifesta outra realidade, pode levar à reflexão de questões humanas em geral, ao mesmo tempo que particulariza a visão de mundo do narrador, do eu lírico ou das personagens que apresenta e do contexto singular no qual estão inseridos, bem como a forma de cada leitor absorver, processar e conectar tudo aquilo. Assim como quando alguém nos conta algo e prende nossa atenção, esperamos que a sequência dos fatos de uma narrativa – notícia, conto, anedota ou fofoca, por exemplo – faça sentido e represente a realidade de alguma forma.

Características como a intertextualidade – o diálogo de uma obra com outras, que se utilizam da mesma linguagem artística ou não – e a metalinguagem – como em obras que fazem referências ao próprio modo de usar a linguagem (como nos textos em prosa que discorrem sobre o exercício de escrever) – também podem influenciar a maneira como olhamos para a literatura, seja ela uma crônica de Cidinha da Silva ou um soneto de Camões. As referências e o vocabulário acompanham e retratam muito do tempo em que cada obra foi escrita, demonstrando as condições nas quais aquele texto foi concebido – e se aproximando dos leitores que vivem no mesmo tempo.

É comum que, por exemplo, tenhamos mais dificuldade com obras como as exigidas em vestibulares ou processos seletivos no geral, já que um dos itens a serem avaliados ali é justamente a nossa capacidade de entender e apreender informações nos mais diferentes usos da língua – no século 15 ou no 21, em um texto rápido e objetivo de um narrador cuja classe social é mais baixa ou em uma descrição exagerada de paisagens com referências a autores barrocos de um narrador mais culto e mais rico – sem julgar e restringir os discursos, mas analisando-os de maneira crítica.

Nossa compreensão acerca de uma obra depende não só da nossa própria bagagem, mas de como enxergamos criticamente construções de determinadas imagens, que se apresentam como um recorte da realidade deslocado para outro contexto. Nada é, objetivamente, belo ou feio, mas parece belo ou feio a nós de acordo com nossos sentidos. O juízo de valor não é aleatório, mas subjetivo e relacionado à apreensão do mundo em movimento.

No campo da literatura, as regras para determinado contexto são dadas pelo próprio livro, sendo a experiência de leitura um conjunto de possibilidades de um grande “e se?” – que, por sua vez, cria a sensação de ilusão e, ao mesmo tempo, verossimilhança. Nesse relato imaginário, escrito por um ser humano, incluem-se e apresentam-se problemas físicos, mentais e sociais – que, se abordados com certa profundidade e uma riqueza de detalhes inerentes a todos os humanos, podem difundir pensamentos e ideias singulares. Ainda nessa esfera, a percepção de cada um também difere entre as estruturas narrativas mais clássicas – mais lineares, grandiosas e com tipos fixos – e as modernas – mais fragmentadas, dispersas e sugestivas –, que se diferenciam em mais uma série de características quanto à abertura dos narradores ou dos eus líricos para uma visão mais ou menos aberta diante do mundo.

Qualquer tipo de informação, compartilhada em cartaz, jornal, livro ou mensagem de WhatsApp, apresenta um discurso previamente interpretado, ainda que se diga neutro ou sem uma tomada explícita de posição. Se usarmos palavras mais fortes, como “enfatizar”, “revelar”, “declarar”, entre outras, por exemplo, para falar de algo que vivenciamos ou ouvimos falar, automaticamente atribuímos uma importância àquilo que está sendo dito ou escrito, ao contrário da ação desempenhada por verbos como “achar”, “pensar” e “imaginar”: e são características como essas, tão sutis como frequentes, que podem promover uma relação de proximidade ou afastamento entre nós e o discurso com o qual entramos em contato.

Por mais que a palavra impressa demonstre autoridade e poder diante de um público e de algo que está sendo dirigido a este, até mesmo textos que lemos em um jornal não se referem à realidade em si, mas a uma reconstrução dela. Porções do real são recortadas e traduzidas, por meio da língua, para o papel ou para a tela do celular ou do computador, em uma seleção subjetiva e necessariamente parcial, que escolhe destacar alguns acontecimentos e amenizar outros.

Assim como a relação das pessoas com a língua se transformou com o surgimento da imprensa no século 19, quando o romance era o principal gênero literário da época, o mesmo ocorre nos dias de hoje na relação que a sociedade desenvolve com a língua e com os textos – impressos ou digitais – que são constantemente editados, a fim de reiterar ou desmentir uma informação prévia, difundindo ideias em diferentes esferas (jornalística, literária, cotidiana, publicitária, entre outras) e atribuindo um caráter de verdade, impossível de ser inteiramente comprovado, a elas.

Com a palavra impressa atualmente coexistindo (e concorrendo) igualmente com a digital, nossa atenção se divide entre vários veículos, portais e redes sociais, possibilitando o acompanhamento de mais manchetes, memes, tweets e mensagens de texto, mas dificultando a concentração na leitura de textos mais longos, como ensaios teóricos e romances. A agilidade do sistema de informações, embora potencializada pelas máquinas, não colabora na organização e na percepção de cada um, que suporta a decodificação e a compreensão de uma quantidade menor de palavras e imagens.

Textos “bons” não são aqueles que agradam um maior número de pessoas e nem os que se apoderam das normas cultas da língua para demonstrar um vasto e gratuito conhecimento gramatical, mas são aqueles que articulam a forma e o tema para transmitir algum tipo de informação, previamente interpretada, e causar certo efeito no leitor que possibilite um pensamento crítico e empático por parte dele.

+Para saber mais:

FIORIN, J. L. “O dialogismo”. In: Introdução ao pensamento de Bahktin. 2ª edição. São Paulo: Editora Contexto, 2016.

ROSENFELD, A. “Estética”. In: Texto/Contexto II. São Paulo: Edusp/Unicamp, 1993.

Vídeo José Miguel Wisnik #01

Texto: João Vitor Guimarães
Revisão: Paulo Vinício de Brito
Ilustração: Beatriz Simões

*Publicado em 3 de junho de 2019

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