#OcupaCCSP: um panorama das diferentes sexualidades e identidades de gênero

Desde a década de 1990, com o crescimento de manifestações mais progressistas, observa-se também um movimento retrógrado que assistiu a isso e recusou essas ideias, impulsionando uma onda conservadora no mundo todo. Hoje sofremos a consequência do conflito entre essas duas forças: a conservadora ocupa lugares de poder, enquanto a progressista se manifesta, de maneira mais incisiva, por liberdade e por direitos igualitários, reconhecendo que vivemos em uma sociedade tão desigual. Por conta disso, cresce a demanda por explicitação do lugar de fala de cada um de acordo com a etnia, a classe social, o gênero ou a sexualidade para atingirmos um tratamento igualitário a todos.

Mas para entendermos que “somos todos humanos” e chegarmos a um patamar em que todos sejam realmente tratados socialmente de um modo semelhante, é preciso identificar e nomear com precisão os privilégios de cada indivíduo de acordo com suas categorias de definição do sujeito. Por isso, saber como essas categorias devem ser encaradas e por que elas ocupam diferentes lugares de fala se mostra o mínimo necessário para o bom convívio na sociedade contemporânea.

Tanto a categoria de gênero como a de sexo são vistas por sociólogos e filósofos contemporâneos como efeitos – e não causas – de instituições, discursos e práticas. A diferença entre ambas, porém, pode ser vista como paralela à distinção entre, respectivamente, cultura e natureza, uma vez que, enquanto o gênero diz respeito a um conjunto de comportamentos sociais ligados a padrões de feminilidade ou masculinidade, o sexo consiste em características estruturais biológicas que classificam os indivíduos em fêmea, macho ou intersexo.

Entre as identidades de gênero já conhecidas e nomeadas pelas ciências humanas incluem-se o agênero (a ausência de gênero), o transgênero (que vai além do gênero e que, portanto, refere-se a um indivíduo que não possui o mesmo gênero ligado a seu sexo biológico), a cisgênero (feminina ou masculina), o gênero queer (que não segue o binarismo de gênero), a androginia (a mistura das características femininas e masculinas), entre outras.

Existem ainda as orientações sexuais, que indicam por quais gêneros uma pessoa sente-se física ou emocionalmente atraída. Atualmente são conhecidas as sexualidades precedidas pelos seguintes prefixos: a-, bi-, pan-, poli-, mono- (homo- ou hetero-), demi- e pomo-, que se distinguem pela forma como um sujeito se sente e pensa sobre si mesmo e seus relacionamentos sexuais com outras pessoas. A categorização, portanto, deve ser realizada necessariamente de dentro para fora, de acordo com as impressões e pensamentos do próprio indivíduo diante de seus sentimentos.

A sigla GLS, criada em 1994, incluía apenas a sexualidade (e exclusivamente a homossexualidade) e a ideia de “simpatizantes”, uma vez que a ideia mais difundida no senso comum era a de “opção sexual”, que hoje sabemos ser falsa e inventada por uma maioria heterossexual que não reconhecia outros tipos de orientações e muito menos que essas orientações se impunham ao próprio sujeito, não se tratando, portanto, de algo relacionado ao livre arbítrio ou decisões subjetivas.

Já o acrônimo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais/Transgêneros), recentemente estendido para LGBTQIA+ (que inclui o gênero Queer, os Intersexuais, Assexuais e “+”, como as outras orientações sexuais e gêneros, além das pessoas soropositivo [com vírus HIV]), pretende contemplar as principais categorias relacionadas às diferentes identidades de gênero e sexualidades. A parada LGBTQIA+ de São Paulo – que nos últimos anos registrou recordes de público, sendo reconhecida como a maior parada do mundo –, ocorre sempre no terceiro domingo do mês de junho em razão de este ser o mês da visibilidade LGBTQIA+.

Esse mês foi escolhido por conta da rebelião que tomou conta do bar Stonewall Inn, em Nova York, no dia 28 de junho de 1969, após a invasão e o ataque de policiais nesse local, conhecido como o principal reduto de pessoas da comunidade na época. Ativistas como as drag queens Marsha P. Johnson (1945-1992) e Sylvia Rivera (1951-2002) foram centrais no conflito tido como o estopim para o início do movimento de libertação gay, já que desencadeou diversas manifestações, incluindo a primeira parada (naquela época, apenas “gay”), exatamente um ano após os eventos ocorridos no bar Stonewall Inn.

Para sociólogas como Judith Butler (1956-) e Berenice Bento (1966-), a indeterminação e a instabilidade das categorias são essenciais para a compreensão do espectro da sexualidade que contempla diferentes nuances e variações ao longo de uma vida inteira. É possível que uma pessoa tenha predisposição à homossexualidade – desenvolvida a partir de mutações genéticas que podem ou não se manifestar ao longo da vida – ou então não se identifique com seu sexo biológico, e qualificando, portanto, a transgeneridade. Logo, ser transgênero não depende da orientação sexual, já que é a configuração do próprio corpo que está em questão, e não aquilo que é ou não atraente para este corpo.

O termo bissexualidade, por sua vez, refere-se à possível orientação sexual em que um indivíduo se sente atraído tanto pelo gênero com o qual ela se identifica quanto “seu oposto”. No entanto, a palavra vem recebendo uma série de críticas por pressupor que existem apenas dois gêneros – masculino e feminino. Com isso, a ideia de pansexualidade tem se mostrado mais inclusiva, já que carrega a acepção da atração de uma pessoa diante de mulheres e homens cis e trans, pessoas não binárias, agêneros, etc.

O uso do vocabulário de cada categoria é importante à medida que faz parte da capacidade que nós, enquanto humanos, construímos pontes de acesso entre as experiências e as identidades de cada um. Não se trata de expor ou ridicularizar o outro, mas entender como ele, enquanto sujeito, enxerga-se diante de categorias identitárias como a classe social, a cor e, especialmente no caso que abordamos aqui, o gênero e a sexualidade. Perguntar só não ofende dependendo da pergunta, e a necessidade por categorizar as pessoas é justamente um dos itens que mais limita e restringe a individualidade de cada um – e, portanto, pode ser também aquilo que tem o maior poder de autoafirmação e libertação: alterar e questionar as construções sociais ou, dizendo de outra forma, desconstruí-las.

Ainda que a sexualidade de cada um esteja em pauta pela importância das recentes pesquisas e descobertas envolvendo o assunto, ela é, na maior parte das vezes, um fator que se apresenta no caráter privado, cabendo a cada um se abrir e lidar com isso da forma que quiser, desde que não interfira na liberdade dos outros sujeitos. Porém, enquanto a sexualidade diz respeito a cada um em sua esfera privada, a discriminação é da ordem do público e diz respeito a todos que fazem parte da sociedade ocidental que hierarquiza e supervaloriza histórica e socialmente uma variação específica de gênero e sexualidade. Por isso, antes de tirar qualquer conclusão, é essencial entender e incluir novas ideias acerca da constituição subjetiva de cada pessoa, fazendo com que atitudes como essa não a classifiquem, mas a libertem.

Além do crescimento das paradas do orgulho LGBTQIA+ no mundo e da saída, nas últimas décadas, da homossexualidade e da transexualidade da lista de transtornos mentais feita pela OMS, o Brasil é também o mais novo país a aprovar o uso de leis de racismo para punir a LGBTfobia. Ao mesmo tempo, um integrante da comunidade morre a cada 20 horas no Brasil e o discurso de ódio contra diferentes orientações sexuais foi um dos principais aspectos presentes na campanha das eleições de 2018 do então candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL), eleito com 55% dos votos válidos.

É notável, dessa forma, a maneira como a heteronormatividade social impõe a heterossexualidade, a proeminência de pessoas cis e daquelas que possuem sua expressão de gênero limitada a apenas um na sociedade – sendo a masculinidade entendida como próxima a características como virilidade e proveniência de recursos e a feminilidade associada à gentileza e à sensibilidade. Nesse contexto predominantemente binário, é essencial que cada vez mais nos aproximemos de todas as variações de gênero e de sexualidade para conseguirmos quebrar as associações simbólicas estabelecidas com cada sexo e para que possamos difundir o real significado de inclusão.

+Para saber mais:

ARIÈS, Philippe. “Reflexões sobre a história da homossexualidade”. In: _______ & BÉJIN, André (org). Sexualidades ocidentais. São Paulo: Brasiliense, 1987.

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.

SALIH, Sara. Judith Butler e a teoria Queer. Tradução: Guacira Lopes Louro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade (vol. I, II, III e IV). Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

MONÁE, Janelle. Dirty Computer. Los Angeles: Atlantic Records, 2018.

Texto: João Vitor Guimarães
Revisão: Paulo Vinício de Brito
Ilustração: Beatriz Simões 

*Publicado em 11 de julho de 2019

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