Muito além da realidade

Às vezes a realidade não é suficiente para que possamos nos expressar. Podemos usar determinados atributos para contornar o real e criar uma dimensão outra que não aquela à qual estamos acostumados diariamente. André Bazin¹ , teórico do cinema, nos explica que as artes plásticas se liberam da busca pelo real a partir do momento em que a fotografia surge. Podemos, então, pensar que, com a liberação da obsessão pela perspectiva perfeita, os movimentos artísticos passam a buscar um eu subjetivo.

Dentro desses movimentos artísticos, o expressionismo busca sensibilizar a partir da expressão da Ideia (com I maiúsculo), como define o dramaturgo Georg Kaiser² . Em 1893, a obra O grito, de Edward Munch, dá início ao que seria uma tendência: a própria paisagem se transforma a partir da emoção e da angústia do rosto que grita, se distanciando de certo padrão de beleza naturalista. A partir de então diversos artistas começam a se conectar com uma expressão subjetiva, influenciados inclusive pela exposição de obras de Van Gogh ocorrida em 1893, em Amsterdam, e em 1901, em Berlin. Outros artistas, como Oskar Kokoschka, Paul Klee e Franz Marc, também trabalharam com a ideia de expressar a realidade de maneira subjetiva, sem se atrelar às perspectivas corretas do realismo francês, por exemplo. No Brasil também tivemos alguns artistas que foram influenciados pelo movimento, como Anita Malfatti, Portinari e Iberê Camargo.

O historiador Francis Coutarde afirma que o expressionismo “provém de um idealismo total, de uma subjetividade sem freios. A visão do artista deve substituir a realidade, objetiva, e o universo interior do criador precisa abolir o mundo visível”³ . Daí então a necessidade de enxergar as coisas alicerçado por uma expressão própria e singular. O significado de cada objeto é dado em consequência da percepção do sujeito que o retrata.

Com a chegada da primeira guerra mundial, diversos artistas plásticos morrem em batalhas ou acabam portando consequências físicas. Nesse momento, o teatro começa a introduzir o expressionismo em suas peças com ênfase na evolução psicológica dos personagens e, em seguida, o cinema fará parecido.

A primeira grande obra expressionista cinematográfica é o Gabinete do Dr. Caligari (1920). Dirigido por Robert Wiene e escrita por Carl Meyer e Hans Janowitz, o filme retrata a história fantástica de um certo Doutor Caligari. Ao chegar em uma pequena vila alemã, Dr. Caligari propõem um espetáculo em que irá acordar Cesare, um sonâmbulo que está dormindo por mais de 25 anos e que tem a capacidade de prever o futuro. Junto da aparição de Dr. Caligari e Cesare, diferentes assassinatos sem explicação começam a ocorrer na cidade. Apesar de parecer uma trama simples, o filme incorpora outros elementos que o tornam uma descoberta fascinante. Dentro da estética, o filme se utiliza de perspectivas absurdas. Apesar do uso de linhas retas, as paredes dos prédios tensionam uma dimensão pontiaguda, como se as imagens alertassem sobre certo perigo. Além disso, a loucura e a inconsistência fazem parte da história que acaba em um labirinto onírico onde a própria sanidade é questionada. A título de curiosidade, o filme não foi bem recebido pelo público na época, que assobiou e riu durante a exibição, além de ter recebido uma crítica severa de organismos políticos de direita que pediam a proibição do filme por “atentar à dignidade do Estado”⁴ .

O cinema expressionista, assim como o dadaísmo e o surrealismo, é antiburguês em sua proposição. A burguesia representaria o passado, a tradição e a autoridade. Então, essa arte busca quebrar com a estrutura burguesa imposta para ir além, em oposição às normas antigas. Porém o movimento não passa ileso e é criticado, sobretudo por marxistas que diziam que o expressionismo lutava contra a burguesia de maneira geral e não contra uma burguesia imperialista. É preciso lembrar que neste momento da história a sociedade europeia assiste à Revolução Russa e se reajusta diante de um cenário pós-guerra. Praticamente uma situação de apocalipse. Inclusive um dos temas centrais do expressionismo é a morte e, como diz Coutarde, “o apocalipse dos apocalipses”5 .

Apesar de não serem considerados puramente expressionistas, filmes como O Golem (1915, Paul Wegener e Henrik Galeen) ou As mãos de Orlac (1924, Robert Weine) nos colocam em situações que ultrapassam o real, mas que são grandes alegorias sobre a vida. Afinal de contas, a fantasia e a ficção científica não são o melhor meio para filosofar sobre as grandes questões humanas e o futuro da humanidade? É só pensarmos em filmes como Blade Runner (1982, Ridley Scott) ou nas séries Matrix e Jogos Vorazes.

O estilo expressionista vai marcar bastante a época e cineastas como Fritz Lang, apesar de afirmar não ser expressionista, incorporarão elementos para criar suas obras. Como, por exemplo, em alguns cenários iniciais de A morte cansada (1921), ou então em Metrópolis (1927), considerada sua única obra expressionista do início ao fim.

Com o tempo, ainda podemos dizer que elementos expressionistas aparecem em filmes mais recentes. Acredito que David Lynch seja um dos exemplos mais vivos desse cinema que se confunde entre realidade e fantasia, terror e desassombro e sombra e luz. Com filmes como Eraserhead (1977, aliás, a estética preto e branco com o trabalho de sombras é algo que podemos admirar bastante no cinema expressionista alemão), O homem elefante (1980) e até mesmo Cidade dos sonhos (2001) usam de diversos aspectos do cinema expressionista, principalmente o desacordo com a realidade. Também podemos pensar em Tim Burton e seu Edward mãos de tesouras (1990), com o qual se pode fazer um paralelo com a invenção de uma criatura mítica, como no filme O Golem.

Para falar sobre assuntos atuais às vezes precisamos contornar a realidade a que estamos acostumados e trazer elementos que condensam uma alegoria. Muitas vezes, essa imagem alegórica vem em forma de uma galáxia muito distante, de um monstro amoroso, ou apenas de imagens que se confundem com sonhos e pesadelos. Portanto, se as artes plásticas encontraram sua liberdade com a invenção da fotografia, ao meu ver o cinema encontra sua liberdade em movimentos como, por exemplo, o expressionismo.

Notas

[1] Bazin, André. ”Ontologia da imagem fotográfica”. O cinema – Ensaios. Editora Brasiliense.
[2] Citado por Francis Courtade em Cinéma expressionniste, p. 10.
[3] Courtade, Francis. 1984. Cinéma expressionniste. Paris: HVeyrier, p.10.
[4] Ibid., p. 67.
[5] Ibid., p. 47.

Texto: Caio Narezzi (doutorando em estudos cinematográficos pela Université Lumière Lyon 2 e pela Université de Montréal, colabora mensalmente com o site do Centro Cultural São Paulo)
Revisão: Paulo Vinício de Brito
Ilustração: Marina Ester

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