Livros dos vestibulares: a diversidade em foco nas listas de obras obrigatórias da prova

O Centro Cultural São Paulo apresenta anualmente uma série de palestras a respeito dos livros presentes nas listas de obras obrigatórias dos principais vestibulares das universidades públicas. Desde a primeira edição do projeto, em 2014, contudo, tanto as palestras como as listas de livros cobradas nas provas sofreram alterações importantes, como a inclusão de relatos memorialísticos, diários e sermões, de um lado, e de poesias e romances escritos por autores contemporâneos, de outro.

Já em relação ao vestibular as mudanças extrapolam a lista das obras obrigatórias, atingindo todo o processo seletivo, que, no caso da FUVEST, conta agora com apenas dois dias na segunda fase das provas – antes era composta de três dias. Com essa diferença, a prova de língua portuguesa e redação passa a valer metade da pontuação. Sendo assim, a literatura e as obras solicitadas ganham um valor maior no processo como um todo.

Com as mudanças expostas acima percebe-se uma intenção de tornar mais plural e diverso o cenário literário apresentado aos jovens que cursam o ensino médio e entram em contato com a literatura de língua portuguesa pela primeira vez. Assim, instituições na maior parte das vezes tradicionais, como a literatura, acompanham as transformações pelas quais a sociedade brasileira passa nos últimos anos, ampliando o conjunto de vozes poéticas que tomam a palavra com referências, perspectivas e linguagens diferentes ao longo do tempo.

A discussão acerca da diversidade de autores com etnias, nacionalidades, gêneros e classes distintos não chega a ser novidade nas pesquisas a respeito da literatura e das artes em geral. Entretanto, é recente a chegada dessa pauta às provas e vestibulares, bem como para o grande público, que vem reavaliando a construção da própria identidade em outros meios além do pedagógico, como na mídia, nas oportunidades de trabalho e no cotidiano em geral.

Pode-se dizer, com isto, que o reflexo entre literatura e sociedade não é simplesmente paralelo, mas distorcido e, por isso, complementar, em que uma parte expressa à outra caminhos e formas possíveis de se contemplar uma maior variedade de indivíduos, pensamentos e valores, além dos textos historicamente consagrados.

O cânone literário, isto é, aquilo que foi instituído como “com o que todo estudante ou cidadão deve entrar em contato” é, em sua maior parte, constituído por autores brancos, heterossexuais e com uma condição de vida favorável, o que limita as vozes presentes nos textos a um pensamento não necessariamente uniforme, mas que compartilha diversos pressupostos em comum. A abordagem de temas como a maternidade, a escravidão e a miséria são dificilmente discutidos pelos autores que pertencem a uma classe superior e não entram em contato com a parcela da população que vivencia determinadas experiências.

Neste contexto, a inclusão de autores sem uma grande tradição crítica consagrada corrobora a importância concedida às próprias obras e a atenção que elas vêm recebendo por novos pesquisadores e estudiosos ao longo do tempo. Assim, torna-se mais plural o estudo dos lugares de fala dos narradores, da dimensão temporal de cada texto e do espaço em que o enredo se desenrola, entre outros elementos atrelados à forma da narrativa.

Tido como o gênero literário por excelência, o romance sempre foi – e continua sendo, no caso da FUVEST – predominante na lista de obras obrigatórias. Se a pretensão de abranger a totalidade e o sentido de uma vida de fato ocorrem neste gênero, a complexidade e a polissemia envolvidas no estudo de obras tão densas e extensas dificultam as associações das narrativas. No entanto, a cobrança de História do cerco de Lisboa (1989) de José Saramago, pela Unicamp traz uma perspectiva contemporânea que praticamente inexistia na lista de obras até então.

A poesia possui como representantes os clássicos Sonetos do português quinhentista Luís de Camões e dois pontos de vista de brasileiros no século XX, sendo Carlos Drummond de Andrade e seu consagrado Claro enigma (1951), na FUVEST, e Ana Cristina Cesar, com seu único volume de poemas publicado em vida, A teus pés (1982), na Unicamp.

O gênero conto também é cobrado dos alunos de formas distintas entre os dois vestibulares. Se a FUVEST exige um volume completo de contos de Guimarães Rosa, Sagarana, a Unicamp opta por solicitar apenas três contos (de autores diferentes), prezando pelo conto em si e não pela articulação entre todos aqueles presentes na mesma obra.

A inclusão de um diário e um sermão na lista da Unicamp, representados respectivamente por Quarto de despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus, e Sermão da Quarta-feira de Cinzas (1672), de Antônio Vieira, também demarca um alargamento no rol de gêneros pelos quais os estudos literários se interessam, trazendo perspectivas não necessariamente recentes, mas distintas daquilo que se convencionou chamar de grande literatura em relação aos aspectos formais das obras.

É relevante observar também a marginalização dos textos teatrais e a pouca exploração da intertextualidade da literatura com outras manifestações artísticas, na escassa inclusão de álbuns musicais – como os álbuns Sobrevivendo no Inferno (1997) dos Racionais MCs, presente na lista de obras da Unicamp, e Elis & Tom (1974), cobrado na prova da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – e filmes – como a aclamada animação O Menino e o Mundo (2014), exigida no vestibular da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Não são, portanto, obras com as quais o estudante está naturalmente em contato no dia a dia. Ao mesmo tempo, não são obras cuja variação da língua se mostra tão complexa a ponto de exigir constantes consultas ao dicionário ou extensas pesquisas para compreender os universos propostos pelos artistas.

Desse modo, com a aproximação do universo dos jovens, a literatura e as artes em geral se mostram acessíveis e abertas a novas histórias e leituras, propondo diálogos, pensamentos e reflexões que permitem o olhar empático sobre o cotidiano que imaginamos conhecer, mas que, na verdade, é muito mais subjetivo, abrangente e coordenado pelo contexto.

Ainda há muito a caminhar na diversidade de obras artísticas cobradas nos principais vestibulares do estado de São Paulo, que carregam uma tradição  mais enraizada no cânone nacional, com pouca inclusão de textos mais recentes ou de outras linguagens como o cinema, a música e o teatro. No entanto, mostra-se esperançosa a mudança tão considerável e inclusiva que vem sendo aplicada nos últimos anos, transformando a concepção generalizada e tradicional atribuída à literatura em uma visão mais particular e próxima a outras perspectivas e diferentes cotidianos vividos pelos vestibulandos.

Texto: João Vitor Guimarães
Revisão: Paulo Vinicio de Brito

Ilustração da capa: Beatriz Simões

*Publicado em 18 de setembro de 2018

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