Diálogos entre acervos: Arte e política no contexto brasileiro

A ideia da série Diálogos entre acervos é criar pontos de contato entre os livros do acervo da Biblioteca (especialmente o da Alfredo Volpi) e as obras das coleções mantidas pelo CCSP. Em novembro de 2018, o texto trata das aproximações entre arte e política em trabalhos presentes na Coleção de Arte da Cidade, sobretudo aqueles concebidos por artistas brasileiros ao longo dos anos do regime militar (1964-1985). Por meio de um breve panorama sobre os vínculos – evidentes ou não – entre arte e política ao longo da história, tanto no contexto mundial quanto no contexto nacional, mostramos como diversos artistas não só se utilizam de suas criações para comentar a realidade em que estão inseridos, mas fazem de suas produções verdadeiros gestos políticos de transformação da vida social.

Arte e política são duas esferas da sociedade, aproximadas constantemente por interconexões da produção artística com os movimentos políticos e sociais de certa época. Mikel Dufrenne, filósofo francês, aponta a utopia como a alternativa de integração entre essas duas esferas. O pensamento utópico é o pensamento do possível que se engendra no agora e no lugar em que vivemos – contrapondo-se às ideologias das camadas dominantes, denunciando a exploração capitalista, vislumbrando a libertação e conduzindo ao engajamento político. Logo, a proximidade entre arte e política vem, entre diversas possibilidades, do desejo pela liberdade e justiça diante de algum cenário em que estes são colocados à prova. A força da utopia norteou, por exemplo, os discursos e as ações dos artistas militantes que se engajaram nas manifestações das novas vanguardas, assumindo formas específicas de acordo com sua inserção no contexto histórico de cada país nos anos 1960.

Ao longo da história, arte e política caminharam juntas, seja por conveniência, seja por dependência. No Ocidente, foi recorrente a figura do mecenas, que incentivava financeiramente a produção cultural, encomendando de artistas certas obras que registrassem os costumes e os hábitos. As obras de arte de diversos períodos, como o Renascimento, contavam uma verdade que se misturava com o interesse político e institucional daqueles que fomentavam o trabalho dos pintores. Mas essa relação entre arte e política atinge, na atualidade, outras dimensões, sendo mais uma prática de reflexão do que um registro de uma verdade absoluta. Segundo a historiadora Annateresa Fabris, o artista pode assumir determinados posicionamentos de acordo com o contexto político de sua época:

“O artista se comporta de diversas maneiras diante do poder político. Pode acreditar na liberdade que lhe é concedida e idealizar sua prática, antepondo ou considerando mais reais as questões propriamente artísticas. Pode ter opiniões políticas manifestas, ser consciente dos mecanismos do mercado, perceber as relações de sua prática com o universo do trabalho. Pode, mesmo não fazendo política, fazer justamente a política que o poder espera dele: aceitar e perpetuar o sistema. Pode escolher a militância do engajamento e da revolução. Pode separar a militância política de sua prática artística, não querendo submeter a criação a leis exteriores.” (trecho do livro Arte e política: algumas possibilidades de leitura, organização de Annateresa Fabris, que está disponível na Coleção de Artes Alfredo Volpi do CCSP).

Para parte da sociedade e dos veículos de comunicação, a chamada “arte política” aborda conteúdos e temas que são transmitidos ao espectador para lhe tornar consciente ou “doutrinado” pela mensagem do artista. Essa é uma visão limitada, pois, tendo a obra de arte uma espécie de jogo de significação em suspenso entre a intenção do artista e a compreensão do espectador, tanto os possíveis significados ativados pela arte como as interpretações do público são campos abertos e amplos. Desse modo, a arte desperta a sensibilidade e a reflexão por meio da experiência estética e, assim, possivelmente impulsiona a consciência e o senso crítico do público. A obra do brasileiro Cildo Meireles – cuja trajetória é atravessada pelo engajamento com as questões do seu tempo –, por exemplo, evidencia o contexto das realidades social e geográfica contemporâneas, sem com isso deixar de ter uma ambiguidade indispensável à liberdade de interpretação que uma obra de arte possa oferecer.

Cildo Meireles – Desvio para o vermelho: Impregnação, Entorno, Desvio (de 1967 a 1984) | Foto: Divulgação

 

A atuação das neovanguardas a partir dos anos 1960 no Brasil

No Brasil, as neovanguardas atuaram no limite entre o moderno e o pós-moderno. Os artistas militantes se engajaram nas manifestações das novas vanguardas, impulsionadas pela construção de uma nova ordem estética e social – que, no caso brasileiro, assumiram as formas do contexto político dos anos 1960. Com o início da ditadura militar, em 1964, os artistas formaram uma frente de resistência ao autoritarismo na sociedade, nas universidades, nos ambientes de fomento à cultura. As neovanguardas – que acompanhavam os novos movimentos artísticos internacionais, desde a Pop Art até a Arte Conceitual – empenharam-se na reconstrução de novas poéticas que considerassem a importância da cultura de massa, buscando a inserção da arte na vida cotidiana dos grandes centros urbanos a partir da combinação, de modo inventivo, da tecnologia da sociedade industrial contemporânea com o programa prospectivo próprio das vanguardas. Essas transformações são evidenciadas, por exemplo, na literatura brasileira com a eclosão da poesia concreta de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari.

No período ditatorial, o engajamento da classe artística se fez muito em prol da luta pela liberdade de expressão, que se mostrava cada vez mais fragilizada por conta dos Atos Institucionais (AI). No MAM-RJ (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro) se organizaram duas exposições que representaram uma frente de resistência dos artistas contra o autoritarismo: Opinião 65 e Opinião 66, de 1965 e 1966, respectivamente. Destaca-se a primeira delas, que, coletivamente, trazia questões urgentes perante os recentes ocorridos na situação política, teve um caráter de denúncia, instigando os artistas nacionais e internacionais a opinarem sobre a atualidade do País por meio de trabalhos que mantinham um intercâmbio com as novas tendências figurativas europeias e latino-americanas. Entre os diversos nomes, participaram Hélio Oiticica, Waldemar Cordeiro e Wesley Duke Lee.

Em 1967, também no MAM-RJ, aconteceu a mostra Nova objetividade brasileira, que, pela confluência de diferentes tendências artísticas no mesmo espaço, representou um movimento que trazia as propostas das novas vanguardas para uma arte genuinamente brasileira, entre elas: a vontade de construir uma arte brasileira em consonância com o contexto artístico internacional, recorrendo à teoria antropofágica do modernista Oswald de Andrade; a participação do espectador na obra de arte; a tomada de posição frente às questões políticas e sociais que emergiam no debate público; e a tendência à arte pública. Todas essas questões marcaram amplamente a relação entre arte e política motivada por uma nova perspectiva da realidade ­do final dos anos 1960. A arte supera os limites físicos dos museus e das galerias, possibilitando a experiência do espectador para além de um percurso linear condicionado pela sucessividade dos objetos que se alinham nas paredes.

Hélio Oiticica – Tropicália (1967) | Foto: Divulgação

 

“Toda essa euforia criativa que eclodiu em 67, conduzida pelas novas vanguardas artísticas, acompanhou a emergência do Tropicalismo, movimento musical centrado na poesia alegórica de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Os músicos do movimento exploravam nas suas composições a sonoridade eletrônica mais avançada, integrada a uma linguagem poética inovadora que se aproximava da visualidade própria da cultura pop, usando a alegoria para realizar sua crítica aos costumes e à situação política do País.” (trecho do livro Arte e política: algumas possibilidades de leitura, organização de Annateresa Fabris, que está disponível na Coleção de Artes Alfredo Volpi do CCSP).

O AI-5 (Ato Institucional nº 5), de 1968, representou o momento mais totalitário da ditadura militar. “Por onde quer que se olhasse não faltavam sinais de inquietação política e de muita movimentação por parte da oposição: greves operárias, novas lideranças políticas, manifestações estudantis e o início das ações armadas por grupos da esquerda revolucionária”, comenta a historiadora Lilia Schwarcz, em matéria para o Nexo Jornal. Desse modo, a luta dos artistas e críticos se organizou em uma frente contra a perda da liberdade, as perseguições e os desaparecimentos de pessoas. Em diretas e vivas ações, uma militância política se materializava em atos públicos de expressão corporal, visual, gráfica, musical. Assim, a arte se insere nas alternativas possíveis de ação combativa: os artistas intervêm nos espaços da cidade e as estratégias da guerrilha urbana se integram ao processo da arte.

A ditadura militar na Coleção de Arte da Cidade

A Coleção de Arte da Cidade do Centro Cultural São Paulo reúne uma quantidade expressiva de trabalhos que foram realizados na ditadura militar do Brasil. Muitos artistas cujas obras são mantidas pela Coleção trabalharam a situação política e social em suas produções, questionando a repressão que se estendia em todos os campos da sociedade. O grupo 3NÓS3 propôs ações de tom questionador que foram realizadas em espaços públicos da cidade durante a madrugada. Parte dos registros dessas intervenções está na coleção de arte postal da 16ª Bienal de São Paulo, do acervo do CCSP.

Das experiências neoconcretas à descoberta de uma linguagem própria, a produção de Lygia Pape, a partir da década de 1960, é marcada pelo envolvimento consciente com o contexto cultural e político do País, propondo, por exemplo, performances interativas e coletivas. A serigrafia Eat me, de 1976, que integra a Coleção, faz parte de um projeto de crítica, segundo a própria artista, ao rebaixamento da mulher à condição de objeto de consumo.

Lygia Pape – Eat me (1976) | Foto: João Silva

 

Amélia Toledo, Ana Maria Maiolino, Anna Bella Geiger, Arthur Barrio, Carmela Gross, Cildo Meireles, Claudio Tozzi, Marcelo Nistche, Nelson Leirner, Paulo Brusky, entre diversos outros, são nomes que têm obras no acervo do CCSP e que representam forças motrizes de contestação dos anos de chumbo – cujos resquícios se estendem, em certa medida, até a atualidade.

Convidamos Magnólia Costa, crítica e professora de história da arte, para responder a seguinte questão: No Brasil, de que modo você acredita que, por meio da arte contemporânea, o público pode desenvolver um pensamento e um olhar críticos em relação às situações política e social do País?

“Uma obra de arte pode ser abordada a partir de sua materialidade (ou imaterialidade), de seu campo conceitual, de seus aspectos representativos ou até simbólicos. A arte contemporânea pode falar sobre todas as coisas, de infinitas maneiras, dirigindo-se aos sentidos e à mente. Ela nos permite descobrir a riqueza extraordinária que existe na diversidade de percepções do mundo porque, como o mundo, ela é complexa e plural. Buscar o contato com a arte é se abrir para outras formas de pensar e de expressar ideias. Assim, mais do que contribuir para o olhar crítico sobre a sociedade, creio que o contato com a arte contemporânea amplia a visão de mundo, algo essencial para que as pessoas se percebam como agentes responsáveis.”

Texto: Danilo Satou
Revisão: Paulo Vinicio de Brito
Colaboração: Vera Maria Porto de Toledo Piza (pesquisadora da Coleção de Arte da Cidade) 
Ilustração da capa: Beatriz Simões 

*Publicado em 22 de novembro de 2018

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