Desenvolvimento do samba paulista – Urbanização e Seu Carlão do Peruche

O samba é uma das manifestações mais presentes em nossa cultura. Proveniente do contato entre ritmos de influência europeia – em específico a polca – e ritmos de matrizes africanas, é objeto de pesquisa de muitos historiadores, sociólogos e curiosos em geral pela grande complexidade de sua história, tanto do ponto de vista de sua origem quanto pelos vários rumos que o gênero tomou, formando uma geografia vasta e diversa dentro de sua própria manifestação.

Considerando que sua origem se deu no Rio de Janeiro – mesmo que não seja fácil definir -, o gênero tem a data de nascimento no final do século 19, começo do 20, a partir de manifestações próximas à Rua Estácio de Sá. Já no decorrer do século 20, na Rua Visconde de Itaúna, próximo à Praça Onze, os sambistas, filhos de migrantes baianos e frequentadores dos terreiros cariocas, passaram a realizar batucadas na casa de uma baiana, mãe de santo e cozinheira, conhecida como Tia Ciata. Donga, Pixinguinha e João da Baiana eram algumas das figuras que frequentavam essas rodas, tendo sido responsáveis pela tradição cultural daquele espaço. Entre as composições da época, em 1917, surgiu o primeiro samba gravado: Pelo Telefone, de autoria de Donga.

No entanto, o samba é resultado de uma raiz profunda que se justifica pela sua africanidade. A presença da cultura africana no Brasil se desencadeou em manifestações resistentes até hoje, como o maracatu, boi-bumbá e a umbigada. E Foi pelas expressões rítmicas de origem bantu da região Congo-Angola que o samba se expandiu no País.

Segundo o pesquisador Amailton de Azevedo, o mapa do samba é extenso e multilateral e deu origem a narrativas que se direcionaram para diversos caminhos. A presença de tambores e a polirritmia serviram de base para os ritmos de partido-alto, samba de terreiro, samba de breque, bossa nova, samba-jazz, samba-choro, entre outros estilos. E, de acordo com toda essa dinâmica de ramificações, nos deparamos com os desenvolvimentos do samba em outras regiões do País, como o samba paulista ou samba de bumbo.

O samba está mais presente na cidade de São Paulo do que se imagina. Além de ser um gênero muito escutado nas casas dos paulistanos, a tradição se mantém nas escolas de samba, em bares, praças e casas de cultura de diversas regiões da metrópole. Originado na região do Largo da Banana – principal reduto dos sambistas, na Barra Funda – e do Bixiga, o samba paulista é vizinho do CCSP, que dentro de sua pluralidade de atividades, recebe constantemente pequenos grupos que usam o espaço para ensaiar, fazer rodas, aprender algum instrumento, cantar, batucar, jogar capoeira e etc. Além disso, no mês de setembro, o Centro Cultural recebeu o lançamento do livro O Cardeal do Samba: Memórias do Seu Carlão do Peruche, biografia organizada pelo pesquisador e historiador Bruno Baronetti.

As manifestações que deram origem ao samba paulista nasceram no final do século 19 no Vale do Paraíba e na região Centro-Oeste do estado. O escritor, músico e etnógrafo Mário de Andrade, tendo identificado tais manifestações, denominou-as samba rural, que nasceu das batucadas realizadas com tambores de tronco e improvisações de cantos com palavras em Bantu.

Essas batucadas se consolidaram na região central do estado pela economia cafeeira e, em decorrência da migração de negros descendentes de escravizados à procura de melhores condições de trabalho, o samba rural foi se instalando na cidade de São Paulo no começo do século 20. O termo samba de bumbo passou a ser mais adequado não só por essa expansão, mas pela diferenciação do gênero com a presença da zabumba ou bumbo – instrumento de percussão usado para a marcação rítmica.

O samba se desenvolveu em paralelo com a urbanização da capital. Os negros que se estabeleceram em São Paulo sofreram um processo de favelização e periferização, pois o contexto pós-abolição os deixou sem espaço na área de trabalho devido à demanda da mão de obra estrangeira se potencializando no começo do século 20. Por serem considerados incapacitados para trabalharem na indústria, exerciam atividades de subemprego, como entregas de marmitas, construção, vendas ambulantes etc.

As “microáfricas”, termo cunhado por Amailton Azevedo, formaram-se nessas regiões e consolidaram um território negro na cidade, carregando as influências rítmicas e culturais do samba de bumbo, do jongo, entre outros ritmos derivados das batucadas.

Integravam essas “microáfricas” as regiões da Barra Funda, do Bixiga, da Baixada do Glicério e do Largo da Banana. E dessas comunidades surgiram as figuras que consolidaram o samba em São Paulo, como seu Carlão do Peruche, que acompanhou e se posicionou como resistência aos processos de urbanização e modernização da metrópole.

Consagrado como um dos “Cardeais do Samba”, a trajetória de Seu Carlão coincide com a história do samba paulista, assim como outras figuras importantes que surgiram ao longo do século 20, como Adoniran Barbosa, Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro, Paulo Vanzolini e a família do seu Nenê de Vila Matilde.

Seu Carlão do Peruche e o desenvolvimento das escolas de samba em São Paulo

Em conversa com o CCSP, o pesquisador da cultura popular brasileira, mestre em história social e professor Bruno Baronetti comentou sobre o surgimento das escolas de samba em São Paulo e sua intrínseca relação com a história de vida de Seu Carlão do Peruche.

Segundo o pesquisador, as escolas de samba vieram da tradição do carnaval de rua pelos cordões carnavalescos que traziam as influências do samba de bumbo. O primeiro grupo carnavalesco foi o Camisa Verde, fundado em 1914, na Barra Funda. Mas, nas décadas seguintes, os cordões já se espalharam pelas outras regiões da cidade, como o Bixiga e a Baixada do Glicério. Em 1937 surgiu a Lavapés, já com o nome de escola de samba, e nas décadas seguintes a Nenê de Vila Matilde (1949) e a Unidos do Peruche (1956).

Seu Carlão frequentou a Lavapés, fundou a Unidos do Peruche e viveu as várias transformações do samba paulista, desde as pequenas manifestações na Praça da Sé até a fundação do sambódromo em São Paulo: “O Seu Carlão é com certeza o maior personagem vivo hoje ligado às escolas de samba. Biograficamente, ele é o embaixador-mestre mais importante. É uma liderança negra que viveu nos três territórios negros de São Paulo: nasceu na Barra Funda, foi para o Bixiga e depois para a Zona Norte de São Paulo – que também é outro reduto negro na periferia – num momento em que a cidade começa a se espraiar e que a população negra começa a ter um processo de gentrificação, sobretudo nas áreas centrais, e ir cada vez mais para longe.” comenta Bruno Baronetti.

Seu Carlão tornou-se figura importante não só pelas composições e pela consolidação do samba em São Paulo, mas pela índole política, num contexto em que o negro e o samba eram criminalizados na sociedade. O pesquisador explica que Seu Carlão era como um mediador cultural, que dialogava com as várias esferas políticas, uma vez que o samba estava entre o poder dos sambistas e de um estado autoritário.

Essa relação complexa já aparecia desde o período do Estado Novo, com o projeto de nacionalização do samba de Getúlio Vargas. Na época iniciou-se um processo de padronização do samba, e esse fator passou a afetar o samba paulista ao longo das décadas, principalmente com o regime militar: “A partir da oficialização do carnaval em São Paulo, em 1960 – e o mesmo processo aconteceu no Rio de Janeiro no final dos anos 1930 e início dos 1940 – a ditadura militar vai oficializar e disciplinar o carnaval, ainda que tenham tido negociações com sambistas. O modelo, inclusive, que os sambistas optam por utilizar, que tinha um espelho e um norte para poder seguir, foi um das escolas de samba do Rio de Janeiro”. Esse acordo foi feito em reunião com o então prefeito de São Paulo, Faria Lima (1965-1969), carioca que tinha em mente a dimensão do carnaval para a vida cultural da cidade.

Nessa reunião constavam lideranças, como Madrinha Eunice, Pé Rachado, Mulata, Mala e Seu Carlão do Peruche, que fundaram a União das Escolas de Samba de São Paulo (UESP): “A construção da UESP vai se dar justamente porque o Estado não vai querer dialogar diretamente com os sambistas. Na verdade há um problema lá nos anos 1960, de uma federação que existia, e a fundação da UESP vai ser uma reação desses sambistas para mostrar para o Estado que eles poderiam negociar juntos e que juntos eles eram claramente mais fortes”, acrescenta.

Nesse sentido, muitas das características do samba de bumbo vão desaparecendo nesse processo, como as formações clássicas de cortejo que seguiam o padrão dos cordões. Porém, o pesquisador afirma ter sido uma escolha de parte dessas lideranças pela sobrevivência das escolas de samba em São Paulo, principalmente com o AI-5, em 1968, em que o estado poderia ter optado pelo fechamento delas. “Com a falta de opção de lazer e de estrutura do estado, as periferias e as escolas de samba vão ter papel fundamental como local aglutinador, de sociabilidade e de lazer dessa população negra pobre em São Paulo”, finaliza o pesquisador.

Assim, as escolas de samba foram tomando lugar na cidade e ganhando financiamentos por parte do governo, que passaram a ocorrer à medida que os acordos eram feitos. O sambódromo foi construído durante a gestão de Luiza Erundina (1989-1992) e a indústria cultural entrou no meio incorporando os desfiles nas programações de Televisão etc.

Seu Carlão tornou-se figura fundamental – e guardião, principalmente da população negra da Zona Norte – com a fundação da Unidos do Peruche, que é referência no samba paulista. Hoje, é a maior liderança viva por ser o último dos cinco cardeais do samba.

Com toda essa gama de referência e história, figuras como Seu Carlão influenciam no gênero e se perpetuam nas escolas de samba tradicionais da cidade, manifestando-se em vários bairros paulistanos. Mas é perceptível que a cultura de massa tenha dominado o espaço – principalmente por São Paulo ser uma cidade grande tomada pela modernidade – e atingido a maioria da população com a música de mercado. Assim, o samba passa a ser resistência cultural e histórica na cidade: “Um ponto positivo é que os grupos, escolas e espaços de sociabilidade do samba são muito bem organizados. E isso os torna perenes enquanto os outros podem ser fenômenos efêmeros que, sem organização, podem surgir e rapidamente morrer”, reflete o pesquisador.

Mesmo tendo havido um processo grande de embranquecimento e desmacumbização em certas regiões, o samba permanece como cultura bastante viva, e ligado às tradições. Por isso é importante que saibamos de onde ele vem e o que significa para a história do Brasil. Em São Paulo, o samba andou junto com os processos de urbanização, dos reflexos da política nacional e do desenvolvimento socioeconômico da metrópole. E, como disse Seu Carlão no lançamento de sua biografia, “Se o samba virou cultura é porque correu muita água debaixo dessa ponte para chegarmos até aqui”.

+Para saber mais

BARONETTI, Bruno. O Cardeal do Samba: Memórias do Seu Carlão do Peruche. São Paulo: LiberArs, 2019.

BARONETTI,Bruno. Transformações na Avenida: história das escolas de samba da cidade de São Paulo (1968-1996). São Paulo: LiberArs, 2015.

AZEVEDO, Amailton. SAMBA: um ritmo negro de resistência. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, [S. l.], p. páginas 45-58, ago. 2018.

MANZATTI, Marcelo. Capítulo 2: Do centro cafeeiro à periferia do centro. In:

MANZATTI, Marcelo. Samba Paulista, do centro cafeeiro à periferia do centro: estudo sobre o Samba de Bumbo ou Samba Rural Paulista. 2005. Tese (Doutorado) – PUCSP, [S. l.], 2005.

Texto: Lara Tannus
Colaboração: Bruno Baronetti
Revisão: Paulo Vinicio de Brito
Ilustração: Marina Ester

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